O Casino de Sintra - História e Curiosidades

O Casino de Sintra – História e Curiosidades

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Muito se tem falado e pouco escrito, sobre a história do Casino de Sintra ou se preferirem, de Cintra. Quando comecei a investigar, a juntar documentação e a escrever a história deste magnífico edifício, decidi referir apenas informação menos conhecida dos Sintrenses e da população em geral.

Algumas dúvidas relacionadas sobre a data da inauguração, sobre quem o edificou, quem o explorou, se era Casino de jogos, se era exclusivamente para elites, os Eventos, etc.

No aglomerado de palavras que se seguem, penso vir a esclarecer algumas das dúvidas mais constantes. Comecemos então.

A inauguração do Casino de Sintra registou-se no dia 1 agosto de 1924 apenas para convidados. A inauguração ao público foi no dia seguinte, no dia 2 de agosto do mesmo ano.

As obras do Casino de Sintra foram iniciadas em 1923 sem licença, sem projeto apresentado nem aprovado pela Câmara Municipal de Sintra. José Alfredo refere que foi aplicada uma multa por ordem da Câmara pelo comandante da Polícia de Segurança Pública, o cabo Simões. 

Os materiais utilizados foram Alvenaria mista, mármore, ferro, bronze, vidro e madeira. O projecto é do arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior, a estátua da bailarina no alto na entrada é do escultor sintrense José da Fonseca.

O Casino de Sintra esteva aberto de 1924 até 1938 ano que encerra. Em 1945 reabertura do Casino pelos ilustres Sr. Artur Brandão e Sr. Rocha Brito. Em 1954 a Câmara Municipal de Sintra adquire o edifício pela quantia de 800 contos.

História do Casino de Sintra

Para aprofundar com mais detalhe a história do Casino de Sintra pesquisei alguns periódicos da época.

O Jornal do comércio e das Colónias, consagra uma sugestiva crónica sobre a inauguração do Casino de Sintra, pela pena do seu redator literário Alfredo pinto.

Já não sou do tempo em que era uso no verão, quando os calores caiam sobre a nossa capital, irem as principais famílias para Benfica, cujas tardes deixaram nome nos anais da sociedade elegante de Lisboa. 

Então, nessa época Sintra era apenas o ponto aristocrático, frequentado por certas famílias que ali possuíam as suas quintas, pelas Majestades, e por este ou aquele forasteiro que se alojavam no Hotel Victor e no Lawrence.

Com o correr dos tempos, Sintra conquistou e tem permanecido numa existência no verão, muito especial, totalmente diferente das demais terras do nosso país. Apesar do caminho de ferro, das ligações mais rápidas com Lisboa, por intermédio dos automóveis, tem-se esta linda terra, democratizado bastante, principalmente aos domingos, tendo perdido a sua feição característica. 

Sintra a histórica vila cantada por Byron, ainda é hoje uma estância de estio quase sem animação, a não ser com uma ou outra festa modestíssima, organizada por meia dúzia de famílias, geralmente em nenhum cunho de verdadeira Arte. 

Sintra um dos poucos pontos do nosso país, cantado pelos estrangeiros, não poderia permanecer assim, apenas vivendo das belezas dos seus Castelos e Parques, e das suas Quintas coalhadas de flores, do murmúrio das suas fontes, das suas sombras e do canto melancólico das aves.

Sintra tinha que sofrer um renascimento em harmonia com os tempos modernos, para que os estrangeiros possam encontrar aqui os atrativos necessários, como estão acostumados a gozar nos principais centros de turismo lá de fora. 

A edificação de um Casino, como o que foi inaugurado no dia 1 deste mês, para a imprensa e convidados, e hoje já aberto para todo o público, marcou um início de brilhantismo, para a vida social de Sintra.

Este Casino que foi edificado e quase concluído nos seus detalhes em 15 meses é da iniciativa dum grande amigo de Sintra o Sr. Adriano Júlio Coelho que possuindo raras qualidades de bom gosto e de tenacidade consegui levar a cabo com ótimo êxito este Casino, que fica a ser um dos primeiros do nosso país. 

Mas este Casino é apenas um detalhe nos projectos que o ilustre benemérito tem em mente. Iremos ter em breve tempo, anexo ao Casino, um magnífico teatro de onde virão companhias nacionais e estrangeiras, um bairro de lindos Chalets, um mercado e, finalmente, um albergue para pobres. 

Enaltecer o valor da iniciativa do Sr. Adriano Coelho é um dever, pois vem transformar numa grande força de beleza, a encantadora Sintra, que será em pouco tempo, anunciada no estrangeiro, em larga propaganda, como um lugar de verdadeiro turismo em Portugal. 

O Casino, segundo o risco do distinto arquiteto Norte Júnior, é um edifício elegante, obedecendo a todas as regras da arquitetura moderna. Os seus salões para festas e exposições, os seus gabinetes de jogo e leitura, as grandes salas para restaurante e bar são de um admirável bom gosto e conforto.

As pinturas do conhecido artista Bemvindo Ceia, e os azulejos artísticos de Alves de Sá, completam a ornamentação do Casino, dando-lhe um sugestivo colorido artístico. 

A gerência do Casino, mostrou aos delegados da imprensa e aos convidados, todas as dependências do edifício e depois de um pequeno concerto no salão de festas, pelo Sexteto Benetó, que executou a Ouverture de Mignon e a Scheherazade de Korsakov, serviu-se no restaurante um chá, onde falaram os seguintes oradores: Dr. Álvaro de Vasconcelos, Norberto de Araújo, Dr.Trindade Coelho, Dr. Fernando Emídio da  Silva, Carlos de Oliveira Carvalho, Amílcar Barros Queiroz, e João António Carretas, vereador. 

Todos os oradores enalteceram as belas qualidades e o carácter do Sr. Adriano Coelho na inauguração deste Casino, que vem transformar por completo a vida mundana da pitoresca vila, colocando-a a par das melhores terras de turismo do estrangeiro 

À noite, pelas 22:00 horas, também no salão de festas, realizou-se um serão musical pelo Sexteto Benetó. A concorrência à noite foi bastante diminuta, o que foi pena, mas a gerência entendeu limitar o número de convites a um restrito número de famílias.

Convidados da inauguração do Casino de Sintra

Na festa de inauguração assistiram os seguintes convidados:

Madame Cau da Costa, D Lauta Reis Ferreira, Rodrigo Peixoto e Felix da Costa, D. Hortense Reis, madames Cast Seixas, Madail Monteiro e Martins Pereira, mademoiselles Gomes Amorim e Guedes, madames Samuel da Silva, Melo Portugal, Sabrosa, Empis  Mackee, mademoiseles Andersen Costa.

D. Alice Felix da Costa Monteir, D. Elisa Antunes de Vasconcelos, D. Maria Margarida Samuel Cintra, Raposo Botelho, D. Maria Galveias  Trigoso, D. Helena Antunes Leão, madame Pimentel, D. Limbelina Pinheiro, Abreu Mesquita, D. Maria Cardoso Oram, Roberto Chaves, Artur Neves entre outros.

Gestão do Casino de Sintra

O Diário da Cidade do dia 2 de agosto conta-nos mais alguns pormenores da gestão do Casino de Sintra em 1924.

O elegantíssimo Casino que ontem nos deu já um magnífico concerto, possui um restaurante, dirigido por um mestre de hotel estrangeiro, servido por criados especializados lá de fora, e falando todas as línguas. 

Tem um bar, ao estilo americano dos grandes hotéis, um largo hall, sala de bilhar e de fumo, salões de concerto, e uma sala lindíssima de exposição. Há em tudo um luxo discreto e amável, um luxo que não oprime, e é sobretudo comodidade e bom gosto. 

Não se jogará nunca ali. É essa a divisa da Sociedade, que tem à sua frente nomes prestigiosos, que visam apenas dotar Cintra com um belo melhoramento, e não explorar estrangeiros e portugueses. 

Muito notavelmente o assinalaram ontem nos seus brindes os Senhores Álvaro de Vasconcelos, Trindade Coelho e Fernando Emídio da Silva. 

A Reabertura do Casino de Sintra em 1945

O Jornal de Sintra de 12 de agosto de 1945 descreve como decorreu a reabertura do Casino de Sintra em 1945 e refere algumas informações preciosas sobre os novos proprietários e os seus projectos.

Refere que os novos proprietários são o Sr. Artur Brandão e o Sr. Rocha Brito.
A data prevista para a reabertura era no dia 11, mas não foi possível por motivos de ordem técnica. Prevê-se que tenha sido no dia 18 de agosto.

As comemorações iniciaram com um banquete oferecido às entidades oficiais, convidados de honra e imprensa, seguindo-se outros divertimentos. 

Os sócios de Artur Brandão e de Rocha Brito foram: Marques de Sousa. Rocha Gonçalves, Fred Kjolner, Guilherme Cardim, Eugénio de Azevedo, Amadeu de Azevedo, Beirão da Veiga e Cardoso de Figueiredo.

Depois da abertura do Casino, pensou-se na construção de uma sala de espectáculos, o grande teatro-cinema, que edificará ligado ao Casino, sobre os alicerces já hoje existentes. 

Outros melhoramentos previstos: “O Hotel de turismo terá também de se construir no mais curto espaço de tempo possível, uma piscina, um ringue de patinagem e um campo de ténis.”

A licença de jogo não foi solicitada embora esteja referido que: “embora seja necessário para o desenvolvimento turístico da terra e se um dia os poderes constituídos fizerem essa medida de justiça, não seremos nós explorá-lo.”

O problema dos transportes para o Casino foi facilitado pelo Sr. Camilo Farinhas, sócio-gerente da Companhia Sintra-Atlântico.

A decoração e mobiliário interior foram fornecidos por três casas importantes, Venâncio do Nascimento, Jalco e Olaio. As tapeçarias e lustres foram tudo do melhor. Cada lustre custou 18 contos, e todas as salas têm “luz a jorros e belos lustres.”

A montagem do sistema de refrigeração no Restaurante e Bar custou cerca de 200 contos, mas o seu funcionamento esteve dependente da água fornecida. 

A orquestra será privativa do Casino e dela faziam parte alguns dos melhores músicos portugueses. 

Com estas inéditas informações sobre o funcionamento do Casino de Cintra, dou por terminada a minha aventura histórica pela Estefânia.

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