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Fonte Del Rei

 

 

Numa acentuada subida entre a Quinta da Penha Verde e a Quinta da Fonte dos Cedros a cerca de duzentos metros do Palácio de Seteais encontra-se a fonte denominada de Fonte Real ou del Rei.

 

Em forma de semi-circulo converge para o interior da antiga tapada da Quinta da Penha Verde delimitada por um muro alto. Apresenta um tanque de forma simetricamente recortada em linhas curvas e rectas contendo a agua proveniente de duas bicas em forma de jarro horizontalmente dispostas, de onde sai agua ou quando sai em desigual quantidade. Enquanto a bica lá colocada jorrava há uns bons anos atrás em abundância a sua similar apenas deixa transbordar algumas gotas quando deixa. Esta desigual quantidade de água deve-se ao facto de somente existir um tanque na parte anterior do alçado do qual convergem as duas bicas, sendo uma mais directa do que a outra ou então está entupida com resíduos acumulados.

 

Fonte Del Rei

 

Adjacentes ao tanque estão dois bancos que mais uma vez convidam ao descanso após longas subidas pedestres. Acima destes encontram-se embutidos no alçado da fonte dois painéis em branco. No centro e por cima do alçado principal ergue-se um outro de forma circular terminando no cume em quatro placas de pedra formando um pináculo ficando-lhe supra colocado um brasão de família com o motivo das armas dos Castro.

 

Neste mesmo alçado podemos ainda observar uma placa com os seguintes dizeres:

 

ESTA FONTE DENOMINADA

DE EL REI HE DO SENHOR

DESTA QUINTA: MANDOUA

FAZER A CAMARA DA VILLA

DE CINTRA EM RECOMPENÇA

DE OUTRA DE BOA E ANTIGA

ARQUITETURA QUE TINHA

POUCO MAIS ABAIXO QUE

SE DEMOLIO QUANDO

SE MUDOU ESTA ESTRADA

 

Esta fonte foi integrada no projecto de restauro da divisão de cultura da CMS em 1989 pelo arquitecto Macintosh tendo-se recorrido aos seus esboços de 1906.

Vou contar-vos uma história curiosa sobre esta fonte que se passou no reinado do D. João V.

 

Uma senhora havia sonhado durante a noite como frequentemente lhe acontecia, que via próximo de Sintra uma fonte a que ao acordar descrevia de uma maneira muito peculiar ao seu marido que por sua vez se descaiu e falou do assunto a um estrangeiro. Este empregou os maiores esforços para o levar a consentir que a sua mulher reunisse com eles em Sintra. Enquanto a esperavam percorreram a cavalo todos os arredores para descobrir o sítio que a dama depois de acordada minuciosamente descrevera. Nisto gastaram dois dias. Ao ser informada do insucesso a senhora mostrou-se ofendida dizendo não estar acostumada a sonhar com fantasias e quis ir ela fazer a descoberta. Percorreram todos os lugares por onde podiam passar a liteira mas debalde. Dispunham-se a regressar e ai pelas sete horas da tarde deu um grito dizendo: é este o vale e o local que eu vi em sonhos. Desceu e correu direita a uma fonte coberta a que chamam Fonte Real. Num papel escrito pela sua mão o estrangeiro faz a sua narrativa:

 

” Sem querer acreditar no sonho da beldade, constituiu para mim uma enorme surpresa encontrar essa fonte exactamente conforme com a descrição que o marido me tinha feito segundo o que a mulher lhe dissera. Custou-me a acreditar que ela já não tivesse já estado naquele sítio mas para desfazer a minha dúvida jurou-me que nunca por ali tinha passado. Afirmou também que por debaixo das pedras de cantaria deviam existir dois grandes potes de ferro cheios de ouro o que seria revelado pelos movimentos de uma vara que empunhasse. De um castanheiro bravo cortei uma vara a qual logo que a dama lhe pegou começou a dar voltas muito rápidas. Abrimos então a ponta da vara e entalamos nela uma moeda de prata. Os movimentos da vara amorteceram. Substituímos na ranhura a moeda de prata por meia moeda de ouro e a vara girou com tal aceleração que a meia moeda se soltou e foi bater na abóbada da fonte. Surpreendido por tudo o que acabara de ver não pude evitar de ter com aquela mulher a complacência de voltar durante a noite ao mesmo sítio acompanhado pelo marido e pela minha gente no propósito de levantar uma das pedras que a lajeavam.

 

Não conseguimos. Tínhamos porem levantado um pouco de uma das pedras e o marido que trabalhava com entusiasmo metendo a mão pela abertura julgou ter tocado um dos potes de ferro que buscávamos. Eu próprio meti a mão e pareceu-me que o homem não se enganava. Retiramo-nos no firme propósito de regressar no dia seguinte. Nesse dia antes de lá voltarmos mandei outro batedor, um criado francês que havia tomado ao meu serviço por recomendação do senhor Meyry oficial francês. Esse tunante atraiçoou-nos do que me convenci quando farto de esperar pelo seu regresso me dirigi sozinho à fonte a ali encontrei marcada a pedra que começamos a remover. Compreendi que então o nosso trabalho havia suscitado suspeitas á autoridade local. Não me descuidei em escrever imediatamente ao secretário de estado a dar-lhe conta do que havia ocorrido e ele respondeu-me que esperasse pois sua majestade tencionava ir a Sintra onde eu o encontraria e nessa ocasião se procederia á abertura da fonte ”.

 

Vou contar-vos mais uns casos extraordinários da senhora Pedegache

Conta assim o estrangeiro:

“Mulher não só extraordinária mas também muito sedutora. Por forma alguma tinha aspecto de uma bruxa embora pelos seus encantos fosse capaz de enfeitiçar qualquer homem. Confesso que não me atrevo a explicar o dom que possuía de ver o corpo humano bem como o dos animais por dentro e o interior da terra a uma grande profundidade e creio bem que seriam vãos os esforços de todos os filósofos juntos para explicar este fenómeno. Eis alguns casos verificados aliás geralmente conhecidos em Lisboa.

 

Quando essa senhora contava mais que cinco anos estando á mesa em casa do seu pai viu um menino no ventre de uma criada que servia a refeição. Esta ofendida com tal visão sustentou que não estava grávida, mas o que é certo é que pouco tempo depois houve o parto confirmando-se assim a visão da menina. Algum tempo depois passeando a menina por certo caminho parou e disse que estava vendo um homem a trabalhar debaixo da terra a mais de sessenta palmos de profundidade e veio a averiguar-se a verdade da visão pois ali existia uma mina cujo respiradouro media a profundidade indicada pela jovem…”

 

“Existe em Lisboa e nos arredores um grande numero de poços que foram abertos por indicação dessa mulher que garantia onde e a que profundidade se encontrava água abundante, garantindo que seria bem empregue o trabalho que estivesse em capta-la e, sempre se verificou com exacta precisão qualquer das suas previsões…”

Fonte: O Portugal de D. João V visto por três forasteiros 1730.

 

Entre outros atributos desta senhora estão também a capacidade de ver obstruções no corpo humano dando grande ajuda aos médicos e passa cinco a seis semanas sem defecar embora coma sempre com apetite. Aqui ficam pois alguns dados a desafiar a sagacidade da natureza deixando em cada um a liberdade de acreditar ou não do que acabo de contar da senhora Pedegache.

 

Fonte Del Rei